Olhei as avaliações do sulca por década de lançamento, por idade do disco e por duração da faixa.
A média de um álbum no sulca é 4,13. Esse número vem de 4.156 avaliações de álbum publicadas, cada uma com todas as faixas pontuadas, e de 56.072 notas de faixa. É um número alto, e isso já diz alguma coisa: ninguém avalia um disco por obrigação.
Mas a média não é a mesma para todo disco. Separei por década de lançamento e a curva é clara.
Um disco dos anos 70 tira 4,5 no sulca. Um disco dos anos 2020 tira 4,1. Quatro décimos numa escala de 0 a 5 é muita coisa, e a diferença é grande demais para ser sorte da amostra.
O recorte por década tem um problema: ele mistura o disco com a época. Então olhei por outro ângulo, a distância entre a data de lançamento e o dia da avaliação.
Disco do ano, avaliado quente, tira 4,0, e 25,5% das notas são 4,5 ou mais. Disco com mais de dez anos tira 4,2, e 38,8% das notas são 4,5 ou mais.
A média sobe pouco. O que muda de verdade é o topo: num disco velho, quase quatro em cada dez notas são 4,5 ou mais. Num disco do ano, uma em cada quatro.
A pergunta certa seria pelo andamento: música lenta recebe nota maior? O sulca não guarda BPM, e nenhuma base aberta cobre o nosso catálogo. O que eu tenho é a duração, que não é a mesma coisa, mas chega perto de um lado dela.
São 55.727 notas de faixa, quase tudo que existe no sulca. A curva é limpa e não tem exceção. E ela não é o efeito do disco antigo disfarçado: olhando só os discos lançados a partir de 2020, ela se repete igual, de 4,04 na faixa curta a 4,27 na longa.
O teste que me convenceu foi outro. Dentro de cada disco, separei as faixas pelo próprio tamanho delas. O quarto mais curto do disco tira 4,10. O quarto mais longo tira 4,26. É o mesmo artista, o mesmo disco, a mesma pessoa dando nota no mesmo dia. Só muda o tamanho da faixa.
A faixa que se alonga é a que leva a nota.
Faixa longa não quer dizer faixa lenta, e eu não vou fingir que quer. Mas é nela que costuma morar a balada, a que abre espaço, a que o disco deixa respirar. E é essa que ganha meio ponto de vantagem.
Aqui eu fiz um teste grosseiro, e vale dizer exatamente como. Procurei no nome das faixas as palavras que a gente usa para falar de perda: saudade, triste, chorar, sozinho, solidão, adeus, lágrima, dor, falta. Em inglês também. Deram 738 faixas, com 1.138 notas.
Faixa de nome triste: 4,20. Todas as outras: 4,12.
São oito centésimos. Pouco, e ainda assim consistente: com 1.138 notas, a margem desse número é de dois a três centésimos, então a diferença não é ruído. O nome da faixa não mede tristeza, mede o que a canção se propõe a dizer. E, pelo jeito, o que se propõe a doer costuma ganhar meio ponto a mais de atenção.
Ninguém avalia um disco de 1975 por acaso. Quem volta a ele, volta porque ele significa alguma coisa: foi o disco de uma casa, de um carro, de uma pessoa. A nota ali não é só do som. Tem um viés sentimental embutido, de conexão com o seu eu interior, e ele puxa a nota para cima.
O disco novo não tem isso. Ele chega sem história com você, e é julgado no calor, na semana em que saiu, concorrendo com a expectativa que você criou. É o julgamento mais duro que existe, e os números mostram: a nota mais baixa do sulca é a do disco do ano.
No Brasil isso pesa ainda mais, porque aqui a música é o que aproxima. É por ela que muita gente se conhece. Dizer o que você achou de um disco puxa conversa, conversa vira conexão, e não é raro ser isso que mantém uma amizade viva de longe. A nota alta num disco antigo é, no fundo, uma nota na memória que ele carrega.
Correlação não é causa. Disco antigo que chegou até hoje já passou por um filtro de trinta anos, e o ruim foi esquecido no caminho. Parte da diferença é isso, e não nostalgia.
A amostra dos anos 70 é pequena, 74 avaliações. A dos anos 2020 tem 2.261. Os dois números não têm a mesma firmeza.
Duração não é andamento. Existe faixa longa e acelerada, e existe balada de dois minutos.
O teste das faixas tristes olha o nome, não o som. Uma música devastadora chamada "Verão" fica de fora, e uma animada chamada "Saudade" entra.
Quem avalia no sulca escolhe o que avalia. Não é uma amostra aleatória de discos, é uma amostra de discos que alguém quis pontuar faixa a faixa.
Já que eu estava com a tabela aberta: nos discos de 8 a 14 faixas, a faixa de abertura tira 4,28, as do meio tiram 4,11 e a última tira 4,09. A primeira faixa é a que mais ganha nota alta. Parece pouco, mas é o lembrete de que quem abre um disco decide se você fica.
Se você quiser testar isso em você mesmo, pega um disco que você ouve desde sempre e dá nota faixa a faixa. Depois pega o lançamento da sexta passada e faz o mesmo. Repare na mão pesando diferente.