Da censura da ditadura ao palco de hoje: os discos que tomaram partido, o que eles cantam e a nota que têm no sulca. Escrevo da esquerda, sem fingir que não.
Toda vez que um artista abre a boca sobre o país, aparece alguém pedindo para não misturar música com política. Esse pedido já é político. Ele quer dizer: cante, mas não sobre quem manda.
Eu escrevo da esquerda e não vou fingir neutralidade. Para mim, música política de verdade é a que fica do lado de quem trabalha, de quem apanha da polícia, de quem não cabe na foto oficial. E ela não é exceção na história da música brasileira. Ela é boa parte do que a gente chama de clássico.
Uma regra deste texto: não transcrevo letra nenhuma. Conto o que cada música diz, e você ouve o resto.
Em 1968, Geraldo Vandré ficou em segundo lugar num festival com Pra Não Dizer Que Não Falei das Flores. A canção chama as pessoas para a rua e diz que esperar não resolve. Semanas depois veio o AI-5, a música foi proibida e Vandré saiu do país.
Caetano Veloso e Gilberto Gil foram presos naquele mesmo dezembro e mandados para o exílio. Transa foi gravado em Londres, em 1971, por alguém que não podia voltar para casa. Dá para ouvir a saudade e a raiva em cada faixa.
Chico Buarque voltou da Itália e lançou Construção em 1971. A faixa-título acompanha o último dia de um operário, que morre no meio da rua e vira estorvo para o trânsito. Ninguém para. É a música mais dura já escrita sobre quanto vale um trabalhador neste país, e ela tocou no rádio.
O disco Chico Buarque, de 1978, guarda duas canções que a censura segurou por anos. Apesar de Você fala com um mandão que proibiu tudo e avisa que o dia seguinte vai chegar. Cálice, escrita com Gilberto Gil, brinca com o som da palavra para dizer o que não se podia dizer: mandaram calar. No show em que seria apresentada, em 1973, desligaram os microfones.
Em 1976, Belchior lançou Alucinação, e Elis Regina gravou Como Nossos Pais em Falso Brilhante. A canção é o balanço de uma geração que apanhou, perdeu e viu que o país continuava igual ao dos pais. Cazuza faria a mesma conta em 1988, em Ideologia: quem inspirava se foi, quem atrapalhava governa, e o disco ainda cobra do país que pare de se esconder.
Em 1997, os Racionais MC's lançaram Sobrevivendo no Inferno por conta própria. Capítulo 4, Versículo 3 abre com estatística: quantos jovens negros a polícia mata, quantos chegam à universidade. Diário de um Detento foi escrita com Jocenir, que estava preso no Carandiru, e conta o massacre de 2 de outubro de 1992, quando a polícia matou 111 presos.
O disco vendeu mais de um milhão de cópias sem gravadora grande e, anos depois, virou leitura obrigatória do vestibular da Unicamp. O Estado que ele denuncia passou a cobrar o disco em prova.
Emicida fez de AmarElo, em 2019, um disco sobre continuar vivo. A faixa-título pega emprestado um refrão de Belchior sobre ter apanhado da vida e seguir de pé, e divide o canto com Majur e Pabllo Vittar. Rincon Sapiência abriu Galanga Livre com a história de um homem escravizado que mata o senhor e foge. Elza Soares, em A Mulher do Fim do Mundo, cantou Maria da Vila Matilde: uma mulher avisa ao agressor que vai ligar para o 180, e que dessa vez quem vai se dar mal é ele.
O Brasil aparece há mais de uma década no topo dos levantamentos de assassinatos de pessoas trans. Num país assim, subir no palco já é declaração.
Pajubá, de Linn da Quebrada, saiu em 2017 pago por financiamento coletivo, e é um disco travesti e periférico do começo ao fim, sem pedir licença. Liniker foi a primeira pessoa trans a ganhar um Grammy Latino, em 2022, e Caju veio dois anos depois, maior ainda. Carranca, de Urias, vai pelo mesmo caminho.
Killing in the Name, do primeiro disco do Rage Against the Machine, saiu em 1992, o ano em que Los Angeles pegou fogo depois do caso Rodney King. A música liga a farda ao racismo e termina com uma recusa gritada dezesseis vezes.
Em 2015, Alright, de Kendrick Lamar, saiu de To Pimp a Butterfly e virou coro nas marchas do Black Lives Matter. Em 2016, Beyoncé levou Formation ao intervalo do Super Bowl com as bailarinas vestidas como as Panteras Negras, e lançou Lemonade logo depois.
Madonna pagou caro por American Life, em 2003, um disco contra a guerra do Iraque lançado no auge do patriotismo americano. Lady Gaga fez de Born This Way um hino que diz que ninguém precisa se consertar. E Bad Bunny, em DeBÍ TiRAR MáS FOToS, canta o medo de ver Porto Rico ter o destino do Havaí: a terra vendida, o povo expulso de casa.
Ela existe e também é política. A diferença é que quem canta a favor de quem manda raramente é chamado de político. Chamam de "só música". Hino de rodeio que celebra o latifúndio é política. Louvor em comício é política. Silêncio sobre o país, quando se tem um microfone e um público de milhões, é uma escolha, e escolha é política.
O que muda é o lado. E eu sei o meu.
Olhei a média desses discos no sulca:
A média geral de um álbum aqui é 4,1. Quase todos estão acima. Vale o aviso honesto: vários desses discos têm uma ou duas avaliações só, então a nota ainda é de pouca gente. Lemonade, Caju e Carranca são os que já têm mais de dez.
Disco que toma partido não é disco que sacrifica a música. Os números, e cinquenta anos de história, dizem o contrário.
Qual foi o disco que te ensinou alguma coisa sobre o país antes de qualquer aula? Abre, ouve inteiro e dá nota faixa a faixa. Sobrevivendo no Inferno tem uma avaliação só. Um disco desse tamanho merece mais gente.
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